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“A Maçonaria buscou nas civilizações iniciáticas e milenares a inspiração e a base de seus conhecimentos transmitidos por meio de símbolos e alegorias”.
Álvaro de Queiroz


1. ORIGENS (PENSAMENTO DOMINANTE)
2. MAÇONARIA NO BRASIL
3. PESQUISAS RECENTES (PENSAMENTO DE VANGUARDA)
Irmão Ricardo Ferreira*


fig. 01 (A Maçonaria, como todas as tradições místicas, começa com a
Divindade como o centro e a fonte de todas as coisas. A ideia de Deus como um "Grande Arquiteto do Universo" pré-data a Maçonaria Especulativa, como indica esta pintura do Ser Supremo, com ajuda de um compasso, circunscrevendo os limites da Criação - Página da Bible Moralisée - 1250)


1. ORIGENS

Há especulações defendendo a tese de que a Maçonaria nos chegou diretamente da Antiguidade. Existem ilustrações maçônicas do começo do Séc. XVIII que mostravam maçons construindo as cidades do mundo antigo (fig. 02). No fim do Séc. XVIII e início do Séc. XX muitos europeus, maçons entre eles, encontraram um caminho para o Oriente Médio, onde descobriram as relíquias de culturas que praticaram os Antigos Mistérios. Nossos Irmãos reconheceram similaridades entre a Ordem e as Tradições Antigas. Mas, como afirma o autor maçônico Rizzardo da Camino, as "origens da Maçonaria se perderam nas brumas do passado". O autor conclui ainda que é um Movimento que começou na antiguidade e foi se espalhando pelo mundo todo de forma gradual em que a nossa Ordem bebeu em diversas fontes religiosas e culturais e extraiu um pouco de cada uma delas se transformando em algo que foi sintetizado nos nossos símbolos, alegorias, ritualística e ensinamentos. O Simbolismo parecido como a Escada de um Templo de Mitra sugere a idéia de que a Maçonaria tem uma conexão direta com esses ritos antigos. Motivos egípcios tornaram-se muito apreciados na decoração maçônica (fig. 03).
fig. 02 ('Workmen at Labour", de Grundliche Nachricht von den Frey-Maurern - 1738)                                                   

fig. 03 (Mosaico com Graus Mitraicos - Século III / Gravura Francesa)

A nossa fraternidade é preexistente à data de fundação das Obediências Maçônicas. Desde a mais remota antiguidade quando o homem fixou-se a terra e criou cidades, impérios, templos e catedrais, a Maçonaria existe. É claro que não com esse nome e nem com essa forma com que hoje conhecemos. Ela sempre existiu em sua essência, em seus sonhos e em seus ideais. A Maçonaria é acima de tudo uma associação de homens livres e de bons costumes, homens de bem que se reúnem para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade. E esta associação, este tipo de reunião, sempre existiu:
  • Na Grécia Antiga – na Escola Pitagórica de Crotona.
  • No Antigo Egito – nos Mistérios de Osíris e de Ísis.
  • Na Caldeia – no Colégio dos Magos do Fogo.
  • Na Palestina – com os Essênios.
  • No Império Romano – no Collegia Fabrorum.
  • Na Idade Média – nas Corporações de Ofício.
  • No Renascimento – na Ordem Rosacruz.
  • Na Atualidade – com o nome de Maçonaria.
Apesar de haver evidência de uma conexão entre a Ordem e os Antigos Mistérios, não há explicação de como o material pode ter sido transmitido ou como a tradição poderia permanecer oculta mesmo com os rigores da Idade Média e da Inquisição. Os maçons são os herdeiros e guardiões dos tesouros de Sabedoria da Antiguidade que, passando pelas mãos de Moisés, Salomão, Hiram Abiff, Hermes, Buda, Jesus, Zoroastro, Pitágoras, Jacques de Molay, Cristian Rosencrauz e muitos outros, bebendo ainda em fontes como o Cristianismo, Judaísmo, Budismo, Hinduísmo, etc., são hoje sintetizados e sincretizados em nossos símbolos, ferramentas, instruções, símbolos e rituais. Esta é a Maçonaria que sempre existiu e sempre existirá e que se caracteriza, fundamentalmente, por:
  • Ser uma sociedade secreta ou, no mínimo, discreta.
  • Possuir graus iniciáticos através dos quais os segredos e os mistérios são transmitidos gradualmente.
  • Aceitar novos membros por iniciação e convites.
  • Submeter os candidatos a um ritual iniciático e a provas.
  • Cultivar o silêncio e o segredo.
  • Transmitir os ensinamentos por intermédio de símbolos.
  • Exigir um juramento dos seus iniciados.
  • Cultivar ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
  • Reunir-se, periodicamente, em locais preestabelecidos (Lojas).
  • Considerar todos os seus membros como Irmãos.
Outras teorias apresentam evidências da origem da Ordem nos reportando para o Antigo Testamento, proveniente das muitas referências bíblicas, como uso simbólico do Templo de Salomão (fig. 04). A imagem da Escada de Jacó (fig. 05) traz o ensinamento místico de uma avenida interior de comunicação entre o Céu e o ser humano encarnado. Tanto o símbolo como o conceito são centrais no ensinamento da Ordem. O frontispício da Chymical Collections (1650) , antecipa os Painéis da Ordem em sua descrição da dualidade, representado pelo sol/masculino e a lua/feminino. Os objetos descritos são intelectuais reflexivos e ao mesmo nos remetem a uma ideia de intervenção divina. A Maçonaria também toma muitos dos seus símbolos da Tradição Mística Renascentista. Diagramas maçônicos do fim do Século XVIII mostram similaridades com gravuras alquímicas do mesmo período. Muito desse material é encontrado em gravuras que propõem mostrar os "Mistérios" conhecidos apenas pelos maçons (fig. 06).
fig. 04 
(Diz-se que o Rei Salomão construiu seu Templo em Jerusalém de acordo com o plano do Tabernáculo que Deus deu a Moisés no deserto. O projeto desse Templo e a história que cerca sua construção têm um importante papel no simbolismo que comunica os ensinametos na Maçonaria - "Salomão com Projetos do Templo", gravura de J. J. Scheuchzer - Physica Sacra Iconibus Illustrata - Augsburg - Ulm, 1731)      
         
fig. 05 ("O Sonho de Jacó" - gravura dos trabalhos de John Milton, Londres - 1794 - 1797)
fig. 06 ("The Mysteries that here are Shown" - gravura da metade do Século XVIII)

Mas, os historiadores mais "ortodoxos" consideram que a Maçonaria foi fundada oficialmente no dia 24 de junho de 1717, em Londres, quando se reuniram quatro Lojas Maçônicas para constituir a primeira "Obediência Maçônica" do mundo: a Grande Loja de Londres. Ora, se nessa data "reuniram-se 4 Lojas" é porque a Maçonaria, nessa data e perdoem-me a redundância já existia. O que se fez, na verdade, foi a fundação de uma Obediência Maçônica e não a Fundação da Maçonaria. No entanto, é preciso reconhecer que foi a partir da estruturação da Maçonaria em Obediências ou Potências é que a Ordem se fortaleceu e sua ação política intensificou-se. Em 1717, quando houve essa reunião, elas se encontravam há um "tempo imemorial" e formaram a primeira Grande Loja em Londres. Adotaram as armas da Companhia dos Maçons de Londres como Brasão da Grande Loja. Oito anos depois, o número de Oficinas filiadas cresceu para 64. Elas continuaram a crescer até que, em 1750, eram cerca de 200 Lojas na Inglaterra. Grandes Lojas similares também foram estabelecidas na Irlanda, na Escócia e no continente. Mas, em 1717, havia outras Lojas que também se reuniam desde "tempos imemoriais", algumas das quais continuaram a trabalhar independentemente. Em 1751, essas Lojas independentes formaram uma Grande Loja rival - "The Most Antient and Honourable Society of Free and Accepted Masons" - escolhendo como Brasão as "quatro criaturas vivas" (leão, touro, homem e águia) que aparecem em destaque na visão de Ezequiel (fig. 07).

fig. 07 (As Armas da Ancient Grand Lodge - mostram o homem, a águia, o leão e o touro. Derivados de Ezequiel, esses símbolos aparecem com destaque na tradição mística judaica, na qual são arquétipos dos habitantes dos quatro mundos - Arms of the antients,  Óleo sobre madeira - metade do Séc. XVIII)

Referiam-se a si mesmos como os "Antigos" porque mantinham as velhas práticas, que eles reputavam mais velhas do que as da Grande Loja Moderna. O fato é que os "Antigos" receberam apoio de Grandes Lojas estrangeiras e a Maçonaria da Escócia, Irlanda, do continente e dos Estados Unidos tenderam para a "Antiga" Maçonaria. Ocorreram esforços para reconciliar as duas Potências até que, em 1831, as duas Grandes Lojas se juntaram para formar a Grande Loja Unida da Inglaterra. Os brasões, então, foram unificados. Em 1919, com a permissão do Rei George V, foi acrescentada uma fita em torno do Brasão contendo oito leões para marcar a longa associação entre a Família Real Britânica e a Ordem. Essas primeiras Lojas inglesas reuniam-se em tavernas e conduziam seus trabalhos durante o jantar. A principal forma de instrução era uma espécie de catecismo, que incorporava os elementos da metafísica ocidental representada pelos símbolos maçônicos. Depois da fundação da Grande Loja, a ênfase mudou do catecismo para rituais mais elaborados. No começo do Século XVIII a maioria das Lojas trabalhava em um sistema que tinha dois graus comparáveis aos de Aprendiz e Companheiro contemporâneos. Por volta de 1730, muitas Lojas na Inglaterra, França, Escócia e Suécia conduziam rituais com três Graus de forma geral, ainda em uso hoje em dia e rapidamente essa prática se tornou quase universal (Aprendiz, Companheiro e Mestre - na Maçonaria Simbólica).

Grandes homens como Voltaire, Goethe, Beethoven, Mozart, Haydn, Napoleão, Garibaldi, Lamartine, Mazzini, San Martin, George Washington, Simon Bolivar, e muitos outros foram maçons. A Maçonaria participou ativamente da Revolução Francesa, da Independência da América do Norte, da Independência de todos os países da América do Sul (incluindo o Brasil), abolição da escravatura, da República no Brasil, ou seja, de toda luta de todos os povos contra a tirania, a opressão e a escravidão. Há gravuras como o do lançamento da pedra fundamental do Capitólio, em Washington, nos EUA, onde o presidente George Washington e vários de seus colaboradores aparecem trajando o avental maçônico, como também em uma gravura mostrando a Iniciação de Frederico II, da Prússia. Ou, então, numa em que Sua Alteza Real Albert Edward, Rei da Inglaterra, aparece em trajes maçônicos no período de 1901 a 1910 (Edward VII). Dentro dessa teoria, tudo leva a crer que a Maçonaria teve sua origem nas associações de pedreiros livres dos templos medievais, os construtores de catedrais. Esses pedreiros mantinham segredos dos profundos conhecimentos da arquitetura, possuindo uma hierarquia e chamando-se de Irmãos entre si. Na convivência realizavam suas refeições juntos, possuíam ritos tradicionais e promoviam a união entre seus membros e propagando uma ajuda mútua (fig. 08).

fig. 08 (Os maçons operativos do período medieval eram, de muitas maneiras, os predecessores dos maçons especulativos contemporâneos, e o trabalho que deixaram - tanto os edifícios propriamente ditos, quanto as pequenas figuras esculpidas com as quais eram adornados - oferece evidências incríveis a respeito de suas vidas e atitudes)

No Século XVI, na Inglaterra e na Escócia, as associações começaram a perder seu poder e, com isso, buscaram membros estranhos à profissão. A nova situação transformou as associações em um misto de Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa, e, a partir do Século XVIII, acabaram tornando-se completamente Especulativa. Alguns historiadores da Ordem voltam no tempo procurando ligações entre as associações. Podemos citar algumas bem importantes como:

- Colégios Romanos, espécies de associações corporativas derivadas dos galo-romanos.
- Associações Monásticas de Constrtutores da Idade Média, as quais existiam em razão da ajuda de ordens religiosas ou semirreligiosas como beneditinos, cistercianos, templários, etc.
- Corporações Leigas de Pedreiros.
- Criação na Inglaterra e na Escócia da Maçonaria Especulativa.

Há um mistério ainda não esclarecido que diz respeito à existência de associações similares em uma mesma época em diversas partes do território europeu, praticando rituais semelhantes como se todas fossem extraídas de uma mesma fonte de uma época remota. A reconstrução histórica da Maçonaria é um trabalho de extrema dificuldade por ser o conhecimento das tradições antigas, passado de forma oral para preservar seus segredos. Entretanto, não se vê uma importância significativa em saber se a Maçonaria é um pouco mais velha ou um pouco mais nova do que imaginamos, o importante é seu conteúdo. A partir da fase especulativa, a Maçonaria passou a receber influências de diversas correntes de pensamento, religiosas e culturais, que buscaram no passado remoto ensinamentos iniciáticos e filosóficos e, a partir deste ponto, surgiu uma grande quantidade de Ritos, ligados entre si pela semelhança e objetivos.

O Mestre Maçom e autor Inglês W. Kirk MacNulty, um grande pesquisador da Ordem, em seu livro "Maçonaria - Uma jornada por meio do ritual e do simbolismo"  nos dá algumas pistas bem significativas. Segundo ele, a origem sugere que a tradição mística foi preservada entre os ofícios de construtores desde a Antiguidade, floresceu durante a Renascença e sobreviveu abertamente na Inglaterra, onde ficou relativamente livre da influência e da perseguição da Reforma/Contra-Reforma. Esta não é uma ideia infundada. Os templos que ainda podemos ver nas terras ao redor do Mediterrâneo Oriental fornecem fortes evidências da íntima associação entre arquitetura e filosofia mística envolvendo a nossa Ordem e as Antigas Escolas de Mistérios (cultos secretos revelados por meio da Iniciação e classificados como esotéricos, que eram ministrados aos escolhidos. A maioria dos cultos secretos se relacionam com divindades agrícolas como Demeter e Core, Ísis e Osíris, Dionísio e Mitra, etc. Os mistérios se relacionam com a palvra grega mystikós, utilizada para representar os símbolos de culto em suas relações com a divindade nos mistérios - "Os símbolos maçônicos - Álvaro de Queiroz).

 
2. MAÇONARIA NO BRASIL

No Brasil, a data de fundação do Grande Oriente do Brasil é de 17 de junho de 1822, embora já existissem maçons e Lojas no país, como, por exemplo, a Loja Cavaleiros da Luz, fundada no povoado da Barra, em 1797, em Salvador (Bahia), e a Loja União, fundada em 1800,  no Rio de Janeiro. Em 1815, deu-se a fundação da Loja Comércio e Artes, fundada por maçons comprometidos com a causa de nossa Independência e funcionou até 1818 (portanto, 3 anos), quando foi fechada por uma lei imperial que proibiu o funcionamento de sociedades secretas no país. No entanto, esta Oficina voltou a funcionar em 1821, com o nome de Comércio e Artes na Idade do Ouro. Um ano depois essa Loja cresceu tanto que se desmembrou em 3 Lojas distintas: Comércio e Artes, Esperança de Niterói e União e Tranquilidade. Os Irmãos foram distribuídos por sorteio e, no mesmo dia, as 3 Lojas se reuniram para fundar uma Obediência Maçônica, à qual denominaram GOB - Grande Oriente do Brasil, em 17 de junho de 1822. O seu primeiro Grão-Mestre escolhido foi José Bonifácio de Andrada e Silva. Nesse mesmo ano, no dia 13 de julho, foi feita a Iniciação do Príncipe Regente do Brasil, D. Pedro I, que após três dias, foi exaltado ao Grau de Mestre, adotando, como é de costume no Rito Moderno, um pseudônimo e o escolhido por ele foi Guatimozim.

Menos de dois meses, após esses acontecimentos, D. Pedro proclamou a Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822. No dia 4 de outubro de 1822, D. Pedro I toma posse no cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Gonçalves Lêdo, que atuou com Primeiro Grande Vigilante teve uma atuação e empenho fantásticos em, prol de nossa Independência, só que ele e José Bonifácio não se davam bem e o clima de disputa entre os dois ficou insuportável. E a história, é claro, não poderia ter um final feliz. Em 29 de outubro desse mesmo ano, D. Pedro, por meio de um decreto, encerra os trabalhos do GOB, em virtude da rivalidade e das brigas entre José Bonifácio e Gonçalves Lêdo. Vários maçons são presos e deportados e o GOB somente volta a ser reinstalado em 5 de julho de 1830, com a eleição de José Bonifácio, novamente, para o cargo de Grão-Mestre. Menos de um ano depois (7 de abril de 1831), D. Pedro I abdica, encerrando assim esse capítulo de nossa história. Outras situações, contudo, mais nobres e grandiosas ocorreram ao longo dos anos como a Luta pela Abolição da Escravatura (na qual as Lojas maçônicas cotizavam recursos financeiros dos Irmãos para comprar escravos e colocá-los em liberdade); a Maçonaria teve papel importante na aprovação da "Lei Euzébio de Queiroz", que acabou com o tráfico de escravos, em 1850; assim como também na "Lei Visconde do Rio Branco", que declarou livres as crianças nascidas de escravas; e papel importante também na aprovação da "Lei Áurea", em 13 de maio de 1888. Tivemos ainda a Proclamação da República pelo marechal Deodoro da Fonseca, Mestre Maçom e Grau 33, Soberano Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil no período de 1890 a 1891. Muitos dos grandes vultos de nossa Pátria foram maçons. Para citar alguns: Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Braz, Washington Luiz, Rui Barbosa, Padre Diogo Antonio Feijó, entre outros.

 
3. PESQUISAS RECENTES
 
A tese de que a Maçonaria teria algum tipo de vínculo com os Templários, segundo alguns autores, já caiu por terra há muito tempo, pois não há qualquer documento histórico que comprove esse tipo de ligação. Os estudos mais recentes sobre a origem da Ordem nos remetem, na verdade, para a época dos construtores medievais que precisavam viajar longas distâncias em busca de trabalho. O fato de não terem um local para se fixarem pode ter dado a eles um sentimento peculiar de que era um povo à parte que formava uma corporação sólida e que manteve durante muito tempo suas tradições e rituais próprios. O local da construção das catedrais e dos templos era imenso e o trabalho podia durar vários anos. Na face norte dos edifícios, os construtores erguiam abrigos de madeira que chamavam de “Lojas” e que permaneciam nesses locais até o final dos trabalhos. Tudo era centralizado nesse lugar. Era ali que eles se abrigavam do tempo, descasavam, faziam suas refeições, confraternizavam e preparavam o trabalho para o dia seguinte.

Quando caía a noite, os construtores deixavam suas ferramentas de lado e praticavam rituais como, por exemplo, o de dar boas-vindas à profissão a um jovem Aprendiz. Esses rituais eram organizados em cima de fatos históricos lendários e os manuscritos que eram lidos em Loja eram conhecidos como ‘Antigos Encargos’. Os manuscritos destacavam que eles eram descendentes de um povo nobre, Mestres da Geometria e, portanto, verdadeiros cientistas, teóricos, além de trabalhadores. Os Antigos Encargos eram tipicamente ingleses e alguns desses textos sobreviveram ao longo de séculos. Um deles está guardado na Biblioteca da Grande Loja Unida da Inglaterra. É o manuscrito nº 1 da Grande Loja que é o 3º manuscrito mais velho dos Antigos Encargos. 
 

 
É um rolo com cerca de 2 metros de comprimento com alguns centímetros de largura, bem pequenos, com palavras bíblicas e falando um pouco sobre a história do ofício dos construtores medievais. Esse remonta ao ano de 1588. São uma espécie de panfletos que, ao que tudo indica, foram confeccionados, exatamente, para serem transportados em viagens pelos construtores. Esses maçons da Idade Média não eram apenas trabalhadores braçais, possuíam uma corporação sólida e rituais lendários e demonstravam ter um grau de espiritualidade altamente desenvolvido. A grande pergunta que se faz é se essas Lojas da Idade Média teriam sobrevivido ao tempo até 24 de junho de 1717, quando foi criada em Londres a primeira potência maçônica que se tem notícia, a Grande Loja da Inglaterra?
 
Alguns pesquisadores afirmam que essa tese teria que ser rejeitada, pois nessa época não existia na Inglaterra Lojas Operativas em funcionamento e que o sistema de Lojas se dissipou como os grandes edifícios de pedra, já que naquela época as construções passaram a utilizar outros materiais como tijolos, por exemplo, e pessoas que não tinham qualquer conhecimento do ofício dos antigos construtores subitamente transformaram-se em Maçons. O mistério, então, se aprofunda ainda mais. Então como surgiu a primeira Grande Loja? Naquela noite de 24 de junho de 1717 na Taberna ‘The Goose and Gridiron’, quatro grupos decidiram se reunir e criar o que chamaram de Grande Loja. Nessa ocasião elegeram o primeiro Grão-Mestre que foi Anthony Sayer. A narrativa do que aconteceu naquela noite foi desenvolvida muito tempo depois por alguém que se transformaria em um personagem famoso, o pastor James Anderson, que era maçom e viria a ser o responsável pela elaboração de uma constituição dos maçons, conhecida como a Constituição de Anderson. Ele se transformaria depois em um Grande Oficial da Loja de Londres em Westminster. A sua narrativa já mencionava a expressão ‘maçons livres e aceitos’. Foi um evento de fundação porque pela primeira vez uma Grande Loja era criada e estabelecida como uma Maçonaria organizada. No entanto, não há documentos históricos que comprovem que, realmente, essa reunião aconteceu, mas apenas o relato do pastor James Anderson. Ou seja, não há documentos precisos do momento de fundação da Maçonaria Moderna.
 
Seus membros eram de origem humilde, pequenos lojistas, artesãos, comerciantes e pessoas que já difundiam a ideia de fraternidade. Nessa época, devido as adversidades e a falta de amparo por parte dos governos, as Lojas trabalhavam muito com a ideia de que seus membros precisavam se ajudar mutuamente e financeiramente. Nessa ocasião, devido a esse espírito de socialização maior surgiram muitos clubes, agremiações e associações que defendiam credos religiosos diferentes e princípios políticos variados. Mas, as Lojas Maçônicas ofereciam algo maior, uma proposta mais séria, em que homens que quisessem, poderiam se transformar em pessoas melhores para servir à sociedade e á humanidade. Nessa ocasião, surgiram instituições como a Royal Society, dedicada ao estudo das Ciências, muito interessada em estudos alquímicos e herméticos e que teve como um de suas grandes celebridades Isaac Newton. É claro que com o tempo os seus membros viram nessa nova ciência e nesse novo grupo, chamado Maçonaria, um local perfeito para disseminarem suas ideias. Com isso, a Maçonaria se expandiu de maneira impressionante. Em 1723, eram mais de 30 Lojas que reuniam nobres, plebeus e comerciantes. Mas, a sua difusão era complicada, isso porque não era permitida a publicação e nem a divulgação dos primeiros rituais. Entretanto, alguns registros sobreviverem ao tempo. Eles faziam desenhos que, na verdade, reproduziam o painel simbólico em cima de cavaletes de madeira e depois os mesmos eram apagados e seguia-se o jantar, momento em que havia a confraternização do grupo.
 
O seu crescimento em número de integrantes chamou, é claro,  a atenção de outros segmentos da sociedade. Os nobres e cavaleiros não queriam ficar de fora e começaram a se aproximar da Ordem e isso selaria o destino da Instituição. Pouco mais de dois anos de criação da Grande Loja, Jean Theophile Desaguliers era eleito o novo Grã-Mestre. Filho de protestantes, ele e a família fugiram da França devido a perseguição religiosa. A chegada de Theophile foi num evento considerável, pois ele não era um João ninguém. Filósofo, ele conclui seus estudos em Oxford; tornou-se Ministro da Igreja Anglicana; foi membro da Real Society (onde usou muita a estrutura da Instituição para desenvolver suas pesquisas), além de um cientista, assistente e um grande divulgador das ideias de Isaac Newton. Desaguliers foi o único a receber por três vezes a Medalha Copley, um prêmio da Royal Society pelo domínio das Ciências pelas apresentações de seus experimentos nesta instituição. Em 1721, ele consegue eleger para Grão-Mestre da Grande Loja da Inglaterra, John Montagu, o Conde de Montagu, um dos homens mais ricos da Inglaterra e famoso por suas obras de caridade.

Alguns pesquisadores da história maçônica fazem alguns questionamentos sobre esse período. Como, por exemplo, os maçons dentro e fora de Loja se consideram iguais, que estão nivelados e que as diferenças sociais são amplamente ignoradas, mas por que, então, eles estavam tão desesperados para se tornarem respeitados pela nobreza inglesa, para terem líderes na hierarquia social e no governo também. Em 1721, o pastor escocês James Anderson é convencido por Desaguliers a escrever uma Constituição para organizar os maçons e seu estilo de vida. Entretanto, o pastor que levava uma vida modesta e já vinha passando por dificuldades financeiras, em 1720, e resolve sobreviver fazendo árvores genealógicas por encomenda, só que criava linhagens falsas para dar ideia de que algumas famílias possuíam ancestrais famosos e com prestígio. Mas, Anderson aceita o desafio e resolve fazer a Constituição. Ele não escreve apenas as regras, mas cria uma história para a Instituição. Mas, não eram os seus ideais e sim os dois líderes da Grande Loja e, em, particular, de Jean Theophile Desaguliers e todo o material que escrevia era submetido a uma Comitê e aprovado antes da divulgação. Foi dessa forma que nasceu a Constituição de Anderson.
 

 
Para corroborar os seus relatos, Anderson mergulhou na história dos construtores medievais e incorporou a história da Grande Loja os notórios manuscritos dos Antigos Encargos, se tornando um dos primeiros acadêmicos da história da maçonaria ao pesquisar os antigos documentos e traduzi-los paras seus contemporâneos. O documento teve uma forte influência, sendo traduzido para o francês, alemão e italiano, ganhando um grande alcance no início de 1730 quando a Grande Loja emergiu por toda a Europa e no que viria a ser os Estados Unidos da América. É o texto mais fundamental produzido pela Maçonaria. Há alguns autores que entendem que, para dar respaldo à organização, Anderson propositalmente relacionou os membros da Maçonaria aos construtores da Idade Média. Inventou essa ligação, enquanto alegava que os verdadeiros ancestrais dos maçons eram também os diversos líderes mundiais desde Adão. Para alguns foi um posicionamento político para dar legitimidade aos novos líderes da Loja, que eram da classe dominante da sociedade inglesa.

Estabeleceu-se, com isso, uma autoridade moral dessa organização. Robert Cooper, da Grand Lodge of Scotland, em depoimento ao NatGeo no documentário ‘A Chave Escocesa’, fala, exatamente, sobre isso. Ele até faz uma pergunta, dizendo o seguinte. Se você tivesse que escolher uma organização que foi criada há pouco tempo e uma outra com 1.000 ou 2.000 anos, qual você aceitaria entrar? Normalmente, as pessoas escolheriam aquela com maior tradição e com maior tempo de fundação. No mesmo documentário, John Hamill, da United Grand Lodge of England, frisa que com os regulamentos da Constituição podia-se notar um certo padrão emergindo, na qual Londres era o centro e a partir dela expandia-se diversas Lojas Maçônicas. Abriram-se lojas de forma deliberada sob uma estrutura centralizada com um certo grau de controle envolvido em tudo isso. O sucesso foi tanto que as Lojas chegaram a conclusão de que as tabernas ficaram pequenas demais e em um curto período de tempo, eles construíram seus próprios locais de reunião, chamados de Templos Maçônicos. O mais antigo foi construído em 1735 em Edimburgo, na Escócia. O Edifício foi preservado e foi uma testemunha importante da atmosfera dessas primeiras reuniões e acima de tudo do crescente sucesso da Maçonaria. Essa foto é do Saint John’s Lodge, em Edimburgo.

 

 
Quem iria imaginar que na Inglaterra, as mentes brilhantes que tornaram possível tudo isso foram um pastor escocês e o filho de um refugiado francês. Para John Hamill, da Grande Loja Unida da Inglaterra, Desaguliers tendo passado pelo drama da perseguição religiosa pode ter sido atraído pelas ideias da maçonaria de Tolerância e respeito mútuo entre as pessoas. Há, segundo ele, uma frase bem emblemática no primeiro encargo da Constituição de Anderson que retrata bem isso. O texto fala que a Maçonaria ao ser o centro de união, ela consegue reunir todos aqueles que de outra forma teriam mantido uma distância perpétua. Nesse meio tempo, Inglaterra e Escócia foram reunidas em um único Reino, depois de muitas guerras civis e caos político e religioso e parecia que uma paz precária seria possível. No entanto, o que chama a atenção é que os escoceses , naquela época, não eram bem aceitos pelos ingleses e a pergunta que se faz é por que Desaguliers escolheria um escocês para escrever a Constituição dos Francos-Maçons. Alguns pesquisadores apontam para uma possível viagem que Desaguliers fez meses antes à Escócia onde conheceu a Loja Maçônica Mary’s Chapel nº 1 e manteve contato com os Mestres escoceses que depois de o testarem, o reconheceram como um dos membros da fraternidade e ele, então, foi recebido pelos integrantes da Loja na cidade de Edimburgo, considerada mais antiga que qualquer outra Loja inglesa.

    
 
Mary’s Chapel ainda existe e possui as atas de suas reuniões de séculos atrás e numa delas há o registro da passagem de Desaguliers pela Loja onde se apresentou como ex-grão-Mestre da Grande Loja da Inglaterra. O estudioso David Stevenson, da University of St. Andrews, acredita que ele foi testado, porque os escoceses queriam ter certeza se ele, realmente, era um Mestre da Inglaterra. Ele acredita que os maçons escoceses se sentiram honrados com a visita e no retorno à Inglaterra, ele escolheu Anderson para ser o responsável pela confecção da Constituição por acreditar, realmente, que os escoceses conheciam os assuntos maçônicos. Até essa parte conseguimos compreender as circunstâncias em que a Maçonaria surgiu em Londres. Agora, a outra pergunta que se faz. Quem seriam esses maçons que precederam em mais de 100 anos os seus Irmãos da Inglaterra?
 
Para acessar essa ‘chave escocesa’ e entender como isso ocorreu, quem tem algumas respostas é o estudioso David Stevenson, que há mais de 25 anos realiza pesquisas em arquivos de Lojas Escocesas, e que começou a entender como era o espírito desses construtores de abadias e catedrais na era medieval. Alguns fragmentos de textos descobertos por ele fazem a seguinte referência: ‘nós somos os verdadeiros arquitetos. Deus fez o Universo e nós construímos os edifícios de deus na Terra. Deus é um construtor e nós também’. Ainda falando da Escócia, um personagem enigmático, mas extremamente importante para a história da Maçonaria provocaria uma revolução nesse meio. William Schaw, Mestre de Obras de confiança do Rei James I, no fim do século XVI, ajudou a mudar os rumos da Instituição e na Escócia ele é chamado até hoje de ‘Pai da Maçonaria Moderna’. Algo estava acontecendo no meio da construção, afirma Robert Cooper. Schaw entrou em cena e muito dedicado ao trabalho reorganizou as Lojas Escocesas que, até então, eram totalmente desreguladas e para fazer isso ele editou 2 textos conhecidos como os ‘Estatutos de Schaw’, que são, na verdade, textos jurídicos apresentados em 1598 e 1599 para Coroa Escocesa. Então, pela primeira vez houve a organização dos maçons escoceses em entidades chamadas de Lojas e submetidas a obrigações administrativas. Em Edimburgo, Schaw conferiu a Mary’s Chapel Lodge n. 1, o título de Loja mais antiga da Escócia. Nessa Loja existem registros que começam em 1599 informando sobre esse título e há também arquivado o primeiro Estatuto de Schaw e assinado por ele.
 
Schaw empreendeu mudanças profundas na Maçonaria escocesa e começou a cobrar que as Lojas tivessem Secretários para documentar tudo em registros por escrito e começou a cobrar taxas para admissão de novos membros, formalizando mais as sessões e, com isso, forjando o que viria a ser a Maçonaria Moderna. Exigiu que se consolidasse dentro das Lojas a palavra ‘Maçom’ e dependendo do nível que aquele trabalhador estava, o quanto de estudo ele tinha, o mesmo recebia palavras-chaves e até apertos de mão, criando assim como hoje são conhecidos os meios de reconhecimento dos maçons. Nenhum Mestre tinha o direito de dar trabalho a quem fosse se o mesmo não comprovasse que era maçom e que detinha a palavra-chave correta, mostrando que era um construtor. Ele sabia que muitos deles eram  analfabetos e não sabiam sequer escrever, então ele começou a trabalhar com esses maçons a arte da memória, em que era colocado que eles precisavam memorizar alguns conhecimentos pois depois seriam cobrados em Loja e teriam que falar isso na frente dos outros Irmãos e assim ele foi disseminando a tradição do conhecimento ser transmitido de forma oral, característica da Maçonaria. Com isso, Schaw fez com que esses homens desenvolvessem suas próprias personalidades.

Ele morreu em 1602, mas o sistema de Lojas criado por ele continuou a funcionar e a partir de agora chegamos a mais um ponto de mistério da Maçonaria. Sabe-se que ao longo do tempo as Lojas escocesas começaram a atrair homens que não eram construtores. Eles ficaram conhecidos como ‘Cavaleiros Maçons’, que eram em sua maioria aristocratas, muitos deles ligados ao governo e responsáveis por diversas obras e, provavelmente, isso serviu de elemento de conexão entre eles. O papel desses Cavaleiros foi muito importante. Um deles foi Sir Robert Moray que, curiosamente, foi iniciado na Mary’s Chapel Lodge, intrigado pelos segredos e pelos rituais maçônicos. Ewan Rutherford, da Mary’s Chapel, um dos pesquisadores da Loja, conta que Moray foi general e Contra-Mestre do enfraquecido Exército Escocês e como alguns membros da Loja estavam envolvidos com o Exército, ele acredita que Moray acabou sendo aceito pelo grupo sem problemas. Roger Dache, do Institut Maçonnique de France, disse que Moray no dia de sua Iniciação recebeu uma marca dos maçons que era o símbolo do pentáculo, uma antiga tradição dos construtores que imprimirma suas marcas nas pedras ao término do serviço para poderem receber os seus salários. Moray se identificou muito com essa marca e a utilizou em assinaturas em diversos documentos, um símbolo que carrega uma grande quantidade de significados.
 
Ele se tornou também uma força motriz muito grande por trás da fundação da Royal Society. Encontraremos Moray em Londres cinquenta anos antes da criação da Grande Loja da Inglaterra, sendo um personagem importante na criação da Royal Society, pois foi através de sua influência junto a família real inglesa que a Royal Society obteve a sua sede e seu nome para poder atuar. Outros Cavaleiros como Sir. Robert Moray foram aceitos nas Lojas escocesas e, em breve eles seriam os vetores desse novo espírito que tomava conta dos homens dessa época: o espírito de fraternidade. Mas, afinal de contas esses Cavaleiros e esses Construtores escoceses poderiam ser considerados Maçons? A Maçonaria foi inventada pelos escoceses no século XVI ou pelos londrinos em 1717. Cada um, é claro, vai puxar a sardinha para o seu lado dizndo que eles foram os fundadores da Maçonaria. Stevenson afirma que a questão é puramente de definição. Segundo ele, surgiram as Lojas com Iniciações maçônicas ocorrendo e aceitando homens que não eram construtores e isso não deixa de ser Maçonaria. Em uma época marcada pela vida dura, a necessidade de se manter as relações interpessoais, independentemente das vicissitudes das guerras e dos conflitos, forçaram os homens a estreitarem mais seus laços e de uma certa forma isso favoreceu o aparecimento de um novo elo: a fraternidade. Com o simbolismo das construções, a Maçonaria quis mostrar, ilustrar a imagem da construção interna no sentido de que cada homem precisa construir o seu próprio templo interior na busca de elevar a sua espiritualidade e essa força somada as relações humanas e muitos elementos que vimos no decorrer dessa exposição colaboraram para o surgimento da Maçonaria. A verdade é que essa pesquisa está apenas começando e é uma história que até hoje continua sendo escrita e continuará sendo por muitos e muitos anos.



   
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